4

Percepo de brilho ou luminosidade
Neste captulo e nos seguintes estudaremos as principais capacidades perceptivas do ser humano,
destacando-se entre elas a nossa capacidade de perceber o brilho e as cores dos objetos que nos cercam, seu 
tamanho e a distncia ou profundidade a que se encontram, bem como a capacidade de perceber a sua forma e 
o movimento. Iniciaremos o estudo com a percepo de brilho ou luminosidade porque, aparentemente, 
depende em menor grau de aprendizagem e maturao do que a percepo visual de outras caractersticas dos 
objetos, como seu tamanho ou sua forma, e por isto pode ser considerada mais simples. 
Textos mais recentes empregam o termo percepo de luminosidade, ao passo que nos mais antigos emprega-
se apenas o termo percepo de brilho. Alguns autores mais cautelosos, refletindo este perodo de transio 
na nomenclatura, preferem manter os dois termos. Como o presente texto tem por objetivo uma introduo ao 
estudo da percepo,  conveniente que se mantenham os dois termos, percepo de brilho e percepo de 
luminosidade, a fim de alertar o leitor para a existncia de ambos na literatura especializada. De uma forma muito 
simplificada e resumida, podemos afirmar que a percepo de brilho ou luminosidade refere-se  nossa 
capacidade de perceber a luz (da a preferncia pelo termo luminosidade) que emana ou se reflete dos objetos 
de nosso ambiente. Como estes objetos fornecem luz, so denominados fontes luminosas e podem ser de dois 
tipos: fontes emissoras e fontes refletoras. As fontes emissoras, como lmpadas, velas, vaga-lumes e o Sol, 
emitem luz prpria. As fontes refletoras so todos os objetos capazes de refletir parte, ou a totalidade, da luz 
que incide sobre eles. A intensidade da luz de fontes emissoras  medida em termos de iluminncia, enquanto 
que no caso de fontes refletoras falamos de medidas de luminncia (fig. 4.1). 
67 
Figura 4.1. Existem dois tipos de fontes luminosas: fontes emissoras e fontes refletoras. Fontes emissoras como o Sol, 
lmpadas, fogo e vaga-lumes emitem sua prpria luz. Sua intensidade  medida em termos de iluminncia. Fontes refletoras so 
todas as superfcies capazes de refletir total Ou parcialmente a luz que sobre elas incide. Sua intensidade  medida em termos de 
luminncia. Esta depende tanto da intensidade da luz incidente quanto da proporo de luz que  refletida pelo objeto. 
A luminncia de um objeto depende de duas variveis: em primeiro lugar da intensidade da luz incidente e, em segundo 
lugar, da proporo de luz refletida pelo objeto. A proporo de luz incidente que  refletida  sempre a mesma, e este 
ndice de reflexo  denominado albedo. Albedo (do latim albus, que quer dizer alvo ou branco)  um termo 
freqentemente empregado pelos astrnomos para designar o poder de reflexo de planetas e satlites. Trata-se, portanto, 
de uma medida que nos informa a respeito da proporo de luz incidente que a superfcie de um objeto  capaz de refletir. 
O albedo (A) de um objeto pode ser calculado facilmente dividindo- se a intensidade da luz refletida por este objeto (R) 
pela intensidade da luz que sobre ele inside (1), isto , aplicando a frmula A = R/I. 
Uma superfcie muito branca  capaz de refletir 80 por cento da luz que incide sobre ela, ao passo que uma superfcie preta 
reflete apenas cinco por cento desta luz. Cada objeto tem seu albedo caracterstico, que , portanto, uma propriedade deste 
objeto. No perodo de 24 horas, as condies de iluminao do ambiente variam consideravelmente, como porm o albedo 
de todos os objetos permanece o mesmo, nossa percepo 
da sua luminosidade, ou do seu brilho, permanecer inalterada. Isto , o meu tnis branco e o seu sapato preto 
sempre sero percebidos como branco e preto, respectivamente, no importa se caminhamos numa praia 
ensolarada,  sombra dos coqueirais ou sob o luar. 
Para avaliar melhor a magnitude da diferena de iluminao existente durante o passeio ao sol e o passeio ao 
luar, convm lembrar que a luz solar  800.000 vezes mais intensa que a luz da lua cheia. No entanto, a variao 
da luz incidente no dificultar a percepo da luminosidade, ou brilho, dos nossos calados, pois o seu 
albedo permanecer constante, como permanecero constantes os albedos da areia da praia, das folhas dos 
coqueiros e da pele. Cabe dizer que o sapato preto reflete mais luz de dia que o tnis branco de noite (isto , 
tem iluminncia maior), o que mostra claramente que ns reagimos  proporo e no  quantidade de luz 
refletida que atinge nossos olhos. 
Dissemos no princpio do captulo que a percepo de luminosidade ou brilho pode ser considerada simples. 
Vejamos se voc concorda. Tente fazer a seguinte experincia: procure um material transparente, que filtre uma 
parte da luz ambiental, como, por exemplo, culos escuros. Cubra um de seus olhos com a lente dos culos 
escuros e continue a leitura desta pgina com os dois olhos bem abertos (fig. 4.2 a e b). Em seguida, tire 
rapidamente a lente escura da frente do olho coberto e note que a pgina ficou muito mais clara, isto , 
aumentou sua luminosidade (fig. 4.2 c). Isto  bvio porque, quando voc retirou a lente que filtrava uma parte 
desta luz, realmente aumentou a intensidade de luz que penetrava em seus olhos. Agora recoloque a lente no 
lugar em que estava, cobrindo novamente um dos olhos (fig. 4.2 d). Voc notar que a pgina ficou mais 
escura. A seguir, com uma de suas mos, cubra completamente o olho diante do qual se encontra a lente 
escura (fig. 4.2 e) e voc perceber uma coisa surpreendente: apesar da diminuio na intensidade de luz que 
chega a seus olhos, a pgina parecer bem mais clara, isto , voc percebe um aumento de brilho ou 
luminosidade. Deixe a lente escura diante do olho e afaste a mo (fig. 4.2 O a pgina do livro parecer mais 
escura apesar do aumento na quantidade total de luz que penetra em seus olhos. Este  o conhecido Paradoxo 
de Fechner e nos alerta para o fato de que a relao entre a intensidade da luz que atinge nossos olhos e a 
percepo de luminosidade ou brilho no  to simples como a princpio poderia nos parecer. 
Para estudar esta relao, geralmente so necessrios experimentos que permitam um controle rigoroso de 
todas as variveis que participam desta capacidade perceptual. A maioria dos experimentos feitos para estudar 
a percepo de brilho ou luminosidade ou a constncia de brilho ou luminosidade (esta e outras constncias 
sero estudadas no captulo 8) obedece a um esquema bsico que consiste em apresentar ao sujeito um 
estmulo visual padro de um determinado tom de cinza, isto , deter- 
Fonte emissora 
/ 
/ 
Fonte refletora 
68 
69 
Figura 4.2. Mudanas na percepo de brilho. Olhe para a pgina deste livro (a). Cubra um olho com a lente de uns culos 
escuros (b) e continue a leitura da pgina com os dois olhos abertos. Voc notar que a pgina parece mais escura. Agora retire 
os culos (e) e continue a leitura; voc notar que a pgina parece mais clara ou mais brilhante. Cubra novamente um olho com 
a lente dos culos (d) e voc verificar que novamente a pgina parece mais escura. Deixe os culos onde esto, e a seguir, com 
auxlio da sua mo, cubra completamente o olho diante do qual se encontram os culos escuros (e). Apesar da menor quantidade 
de luz que chega a seus olhos (um est coberto), a pgina parecer mais clara. Retirando a sua (f) mo, voc verificar que esta 
pgina do livro parecer mais escura apesar do aumento na quantidade total de luz que penetra seus olhos. 
minada luminosidade, e pedir que o compare com um conjunto de outros estmulos visuais de comparao, que 
podem variar desde o branco at o preto, passando por todos os tons de cinza intermedirios da escala 
acromtica. Trata-se de uma tarefa relativamente simples quando a iluminao  a mesma para os dois tipos de 
estmulos visuais, pois todos os sujei- 
tos encontram pouca dificuldade para localizar, dentre os estmulos de comparao, aquele que  igual ao 
estmulo padro. No entanto, quando  modificada a iluminao de apenas um dos estmulos visuais, o sujeito 
 confundido pelas diferentes quantidades de energia luminosa refletidas das duas superfcies, pois ele faz 
seus julgamentos supondo que todos os estmulos recebem a mesma quantidade de luz. 
Antes porm de analisar alguns trabalhos experimentais, faamos uma rpida recapitulao do que foi visto at 
agora. Na tabela 4.1 foram resumidos os principais conceitos mencionados at o presente momento. 
Tabela 4.]. Principais conceitos empregados no estudo da percepo de luminosidade (ou brilho). 
Vejamos agora como se procede para executar um experimento cujo principal objetivo  estudar a percepo de 
luminosidade ou brilho. 
No nosso ambiente normal, a mesma iluminao que atinge o objeto tambm incide sobre o ambiente no qual 
este objeto se encontra inserido. Da comparao entre a quantidade de luz refletida de cada objeto (figura) e 
aquela refletida pelo ambiente (fundo) no qual se encontram, o sujeito pode extrair informaes adicionais 
sobre o objeto, isto , seu albedo. O fundo desempenha o importante papel de referncia, e isto foi 
demonstrado em experimentos nos quais os sujeitos eram convidados a comparar o estmulo padro com os 
diversos estmulos de comparao sem que pudessem ver o fundo, isto , o ambiente no qual os estmulos se 
encontravam. Isto foi possvel, colocando entre o sujeito e a situao de estmulos um anteparo, ou tela de 
reduo, que obriga o sujeito a olhar para os estmulos atravs de um minsculo orifcio por onde podia avistar 
apenas os estmulos (fig. 4.3). Nesta situao experimental, o julgamento das pessoas foi feito levando em 
considerao a quantidade de luz refletida dos estmulos e no seu albedo. Quando a tela era retirada, a 
percepo de brilho era novamente quase perfeita. 
Diante destes resultados experimentais surge a pergunta a respeito do papel da aprendizagem nesta 
capacidade perceptiva. Um levantamento criterioso dos principais experimentos realizados com o objetivo de 
verificar a influncia da aprendizagem sobre a percepo de luminosidade mostra que, aparentemente, trata-se 
de uma capacidade perceptiva inata, que pouco 
- 
/ 
/ 
/\\ 
f 
70 
71 

Conceitos 
Comentrios 
Luminosidade ou 
brilho 
Fator psicolgico. Refere-se  percepo que se tem do estmulo. 
Albedo OU reflectncia 
Propriedade da superfcie do estmulo (razo entre luz refletida e 
incidente) 
Iluminncia 
Refere-se  luz emitida. 
Luminncia 
Refere-se  luz refletida 

Figura 4.3. Ilustrao esquemtica de uma situao experimental, vista de cima, a) Sem tela de reduo (anteparo). b) Com 
tela de reduo (anteparo). A: disco giratrio branco; B: discos giratrios branco e preto superpostos que permitem 
obteno de diversos tons de cinza para escolha daquele que parece igual ao disco A; TR: tela de reduo; O: observador; J: 
janela. 
depende da aprendizagem para ser aprimorada. De um ponto de vista ontogentico, verifica-se que a percepo de 
luminosidade em crianas  muito semelhante  dos adultos. Filogeneticamente, experimentos feitos com peixes, pintainhos 
e macacos mostraram que a percepo de luminosidade nestes animais, como no ser humano, tambm depende do albedo 
dos objetos. Estes resultados so muito convincentes nos estudos feitos com pintainhos, animais que logo aps a ecloso 
j possuem comportamentos muito elaborados, como, por exemplo, sair em busca de alimento e preferir bicar gros claros. 
Estes animais foram criados em completa escurido at atingirem uma determinada idade e, em seguida, foram testados com 
gros claros em ambientes de pouca luminosidade e gros escuros em ambientes fortemente iluminados. Em todos os testes 
a que foram submetidos preferiram sempre os gros claros, demonstrando que possuam uma capacidade inata de perceber 
a luminosidade do seu alimento preferido. 
Para evitar a interferncia de pequenas manchas e marcas que porventura possam existir sobre as superfcies dos papis de 
vrias tonalidades de cinza utilizados nos experimentos a respeito de percepo de brilho, alguns pescii.,adores preferem 
empregar um disco giratrio que pode ser submetido a altas rotaes e assim proporcionar um estmulo visualmente 
homogneo. Em 1929, Gelb fez um experimento empregando este tipo de equipamento. Utilizou um disco completamente 
preto, sub- 
metido a alta rotao, e iluminado por uma lmpada, de tal forma que nenhuma outra parte do ambiente, ou do 
fundo, pudesse beneficiar-se da iluminao proporcionada por esta fonte luminosa. Os sujeitos eram 
convidados a se sentar bem em frente ao disco e a responder a uma nica pergunta: Qual  a cor do disco? 
Os sujeitos foram unnimes. Todos responderam que sem sombra de dvida o disco era branco. No entanto, 
quando Gelb pegava um pequeno pedao de papel branco e o segurava por alguns segundos na frente do 
disco, os sujeitos, muito surpreendidos com o que viam, corrigiam-se imediatamente afirmando que haviam se 
enganado; tinham absoluta certeza de que o disco era preto. Quando Gelb retirava o pedao de papel branco, 
afirmavam que no sabiam muito bem o que estava acontecendo, mas estavam certos de que o disco voltara  
sua cor branca inicial. Todos os sujeitos foram incapazes de perceber a verdadeira cor do disco, isto , preta, 
na ausncia do papel branco, ou seja sem um estmulo de comparao. No importa quantas vezes GeIb 
repetisse as duas situaes experimentais, os sujeitos no conseguiram aprender a perceber a luminosidade do 
disco preto corretamente. 
Outros estudos, feitos com crianas de diferentes idades e adultos, mostram que, se houver alguma 
aprendizagem de percepo de luminosidade durante o desenvolvimento do ser humano, ela est completa aos 
sete anos de idade. E importante ressaltar que o mesmo no acontece com outras capacidades perceptivas, 
como, por exemplo, a percepo de tamanho e sobretudo a percepo de forma, na qual a aprendizagem 
desempenha um papel importantssimo como veremos nos captulos seguintes. 
- 
\A s/ 
s \ SI 
5 I 
J \t i / 
_____________ / 
TR 
5 t I/ 
II 
O O 
a b 
72 
73 
